Algumas pessoas adoram argumentar que os quatro evangelhos são muito
discrepantes quanto ao relato da ressurreição e que por isso não merecem
crédito algum. Partindo deste princípio, tentam imprimir na mente de seus
ouvintes que a ressurreição, portanto, não passa de uma fábula inventada pelos
primeiros cristãos. Devido a isso, irei colocar a seguir as reais discrepâncias
encontradas nos relatos da ressurreição e logo após irei mostrar o motivo de,
mesmo assim, podermos confiar neles.
2. Discrepâncias
MATEUS: Maria Madalena e a outra Maria chegaram ao túmulo ao alvorecer do
dia e aparentemente presenciaram um grande terremoto e um único anjo descendo
do céu para rolar a pedra para o lado (28.1-3). O anjo diz para as mulheres
irem anunciar a notícia da ressurreição aos discípulos; e o fizeram com grande
temor e alegria (28.4-8). No meio do caminho, Jesus lhes aparece e elas o
adoram, abraçando seus pés (28.9-10). Após isso, há um salto no tempo, onde é relatado
que os discípulos foram para a Galileia, onde Jesus lhes apareceu, porém alguns
ainda assim, duvidavam a princípio, provavelmente por acharem que estavam
delirando (28.16-17).
MARCOS: Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé, foram ao túmulo de
Jesus, ao nascer do sol. Testemunharam que a pedra do túmulo já estava rolada
para o lado (16.1-4). Quando entraram no sepulcro, viram um anjo em forma de
jovem homem sentado lá dentro (16.5). O anjo lhes diz para irem anunciar a
ressurreição aos demais discípulos, mas ao irem, o foram com grande temor e se
calaram, não falando nada para ninguém (16.6-8). Em algum momento,
provavelmente no meio do caminho, Jesus apareceu a Maria Madalena, que quando
chegou até os discípulos, contou-lhes tudo (16.9-10). Os discípulos, ao ouvirem
a boa nova, não o creram a princípio. Em algum momento, Jesus aparece para dois
discípulos não nomeados, e depois aos onze, em outro momento (16.11-14).
LUCAS: Maria Madalena, Joana e Maria, mãe de Tiago, e outras, foram ao túmulo de Jesus aquando ainda estava escuro e viram a pedra já removida (Lc 24.1-2,10). Dentro do túmulo, viram dois anjos com aparência de homens. Eles lhes contam a boa nova da ressurreição e elas correm para anunciar isso aos demais discípulos (24.4-9). Os discípulos não creram no testemunho das mulheres, mas Pedro correu para o túmulo (24.11-12). Dois discípulos não nomeados se encontram com Jesus no caminho para Emaús (24.13-31). Tais discípulos foram até os demais discípulos para lhes anunciar a boa nova, afirmando que Ele já havia aparecido para o próprio Simão, quando, inesperadamente, Jesus lhes aparece (24.33-36); durante algum tempo, espantados ao verem Jesus, muitos deles não acreditavam no que estavam vendo; Jesus passou a ensinar-lhes (24.37-48).
JOÃO: Aparentemente, apenas Maria Madalena se dirigiu ao túmulo, quando ainda estava escuro, e viu a pedra já removida (Jo 20.1). Após isso, correu diretamente a contar tal fato para os discípulos, pensando que alguém havia roubado o corpo do Senhor Jesus (Jo 20.2). Pedro e João, então, correram em direção ao sepulcro para verificar o ocorrido. Perceberam que de fato o túmulo estava vazio e se questionavam a respeito, enquanto voltavam para casa (Jo 20.3-10). Maria Madalena, que também havia voltado ao túmulo, chorava do lado de fora, quando viu dois anjos dentro do sepulcro. Eles lhe anunciaram a boa nova da ressurreição e quando se voltou para trás, viu o Senhor Jesus, sem saber que era ele (Jo 20.11-14). Jesus se revela a Maria Madalena e lhe manda anunciar o ocorrido aos demais discípulos; ela o faz. (Jo 20.15-18). Depois, Jesus aparece, durante a tarde daquele mesmo dia, aos demais discípulos, menos a Tomé, que não estava entre eles (Jo 20.19-24). Os discípulos disseram para Tomé que viram o Senhor, mas este não creu, até que o Senhor Jesus lhe apareceu, também (Jo 20.25-29).
O primeiro ponto a ser considerado é que se os 4 Evangelhos fossem idênticos isso levantaria a suspeita de plágio entre os evangelhos. Qualquer tribunal poderia, então, acusar os evangelhos de serem falsos, devido à semelhança exata entre eles; poderiam ser acusados de se unirem e forjarem as evidências. Com esses diversos relatos independentes, nenhum historiador sério descartaria os Evangelhos só por causa de discrepâncias secundárias.
Mas será que podemos harmonizar os 4 relatos? Sim. Por exemplo:
a. Vemos que Maria Madalena é citada em todos os relatos, enquanto
que os demais evangelhos acrescentam mais nomes, sendo que Lucas afirmar que
haviam outras não nomeadas. Logo, muitas mulheres seguiram para o túmulo e os
evangelistas destacaram apenas as que acharam mais relevantes, de forma
independente. É pedante afirmar que isso seja uma real contradição.
b. A hora em que as mulheres foram, certamente era o período entre o
fim da noite e o início da manhã; cada um escreveu apenas do seu ponto de
vista: “ao amanhecer”, ou “ainda de noite”. É o mesmo que ocorre quando uma
pessoa diz que um copo está meio vazio e outra diz que está meio cheio; no fim,
estão ambos corretos.
c. Provavelmente elas testemunharam o evento do terremoto, mas apenas
Mateus teria registrado isso, enquanto que os demais apenas saltaram esta
parte, por não acharem relevante, ou por não terem tido conhecimento deste
detalhe, ou ainda por não estarem bem certos se elas foram mesmo testemunhas do
terremoto, ou não (e isso dependeria das fontes consultadas pelos autores dos 4
Evangelhos).
d. É bem plausível que tenham havido dois anjos, ao invés de apenas
um. A questão aqui, mais uma vez, é de perspectiva. Mateus e Marcos devem ter
registrado um único anjo devido a ter sido ele o falante, enquanto que o outro
apenas o acompanhava. Quanto a onde eles estavam, se dentro ou fora (sobre a
rocha que fechava o túmulo de Jesus), é extremamente irrelevante. É provável
que os dois relatos estejam corretos: os anjos rolaram a pedra e depois
entraram no túmulo do Senhor Jesus, e quando as mulheres se aproximaram, um
deles lhes falou sobre a boa nova da ressurreição; o ponto passivo é que haviam
anjos e eles falaram algo para as mulheres.
e. Quanto a se as mulheres se encontraram com Jesus no meio do
caminho, antes de anunciar a boa nova para os discípulos, ou se o encontraram
depois, também é uma divergência mínima, que não compromete em nada o relato
como um todo.
f. Como dito anteriormente, cada uma dessas discrepâncias corrobora para a veracidade histórica do ocorrido e não o contrário, pois cada autor contou-a de forma independente, sem plágio algum, a partir de suas próprias fontes. Contudo, acabamos de ver que, mesmo com as tais discrepâncias, os relatos da ressurreição se harmonizam de forma perfeita; os detalhes principais, como as testemunhas, o local da crucificação, o dia da ressurreição e a hora em que ocorreu, permanecem sem contradição alguma.
Texto: Gabriell Stevenson
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